segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Colombo genovês, o tio errado #5 ('Provas' 6, 7)

 

'Provas' {6} e {7} - págs 73-74:

[D. Hernando] E depois de fingir ignorar o nome dos avós, declara no capítulo lxxii (=lxxiii) que Bartolomeu Colombo, irmão de Cristóvão, adelantado e governador das Índias durante a ausência deste em Castela, havia dado o nome de Santo Domingo à cidade que fundara, in commemorazione di suo padre, che si chiamava Domenico {6}

[Oviedo] o primeiro cronista das Índias de Castela, se bem que se equivoque no ano, escrevendo 1494 em vez de 1498. Mandaria porém, a honestidade citar o texto in extensu:

... e llegó a este puerto, según algunos dicen, domingo, dia del glorioso Sancto Domingo, a cinco dias de Agosto, año de mill cuatrocientos y noventa y cuatro años... Pero, inquiriendo yo e deseando saber la verdad por qué esta cibdad se llamó Sancto Domingo, dicen que demás de haber allí venido a poblar en domingo e dia de Santo Domingo, se le dió tal nombre porque el adre del primer Almirante y del Adelantado su hermano, se llamó Dominico, y que en su memoria el fijo llamó Sancto Domingo a esta cibdad. {7}


ACC:

Não é possível afirmar-se peremptoriamente que D. Hernando fingiu ignorar o nome dos avós. Como pode ter-se a certeza que fingiu e não de que efectivamente ignorava o nome dos avós?

Expressa o Prof. Thomaz a opinião de que "Não é crível que D. Hernando, que acompanhou seu pai na sua quarta viagem ao Novo Mundo, de 3 de Abril de 1502 a 7 de Novembro de 1504 e teve por conseguinte dois anos e meio para o interrogar sobre o seu passado", ou seja, assume que isso seria só por si suficiente para que o Almirante revelasse a seu jovem filho todo o seu passado. Trata-se de uma interpretação subjectiva do Prof. Thomaz.

Mas o próprio D. Hernando escreve que por respeito e temor filial não insistiu com o pai de forma a conseguir arrancar-lhe os mais íntimos segredos. D. Hernando era ainda menor de idade e esse período poderá ter sido o único que partilharam. Sintomaticamente, são conhecidas diversas cartas do Almirante para seu filho legítimo Diogo, mas nenhuma para Hernando.

Não é de excluir que o Almirante, na sequência dos boatos que lhe atribuíram um nome e uma origem que não eram seus mas que se lhe tornaram convenientes, tenha resolvido transmitir ao filho apenas isso, como se constituísse a verdade. Ou nem sequer teve que ser ele a transmitir-lho pessoalmente, pois o boato foi alastrando.

O facto de D. Hernando apontar (in Historia do Almirante, cap. I) o nome de diversas localidades da Ligúria e Lombardia (Nervi, Cugureo, Bugiasco, Génova, Savona, Piacenza) de onde seu pai poderia ser natural, demonstra que o Almirante foi extremamente evasivo no que lhe terá dito sobre esse assunto. O surgimento de tantas hipotéticas localidades para naturalidade do Almirante reforça que se tratava de um boato e não de uma certeza factual.

O que é reforçado por D. Hernando ter descrito que se deslocou a Cugureo para tentar obter informações sobre os dois irmãos Colombo que eram os mais ricos do castelo, nada tendo conseguido saber. (in Historia do Almirante, cap. II).

Quanto ao nome de Santo Domingo, na História do Almirante consta que Bartolomé Colon o atribuiu em homenagem a seu pai que se chamava Domenico, mas por exemplo o cronista Gonzalo de Oviedo indica que o fez porque fundou a povoação num Domingo e dia de S. Domingos [de Gusmão] e também porque seu pai se chamava Dominico.

Nesse caso não teria sido Santo Domenico ou San Domenico?

Escreve o Prof. Thomaz (pág. 74) que tanto Las Casas como Herrera atestam que Colombo discordou do nome da cidade e preferiu chamar-lhe "Isabela Nueva", nome que foi de pouco efeito.

Mas o autor não extrai deste facto qualquer conclusão, ou seja, uma inevitável conclusão: se o nome da cidade fosse atribuído para homenagear o 'pai Domenico', iria o Almirante substituí-lo por outro?

domingo, 5 de dezembro de 2021

Colombo genovês, o tio errado #4 ('Prova' 5)

 

'Prova' {5} - pág. 73:

[D. Hernando] … depois de dar a crer que não sabia ao certo de onde era oriundo seu pai, aventando entre outros lugares, Placência da Lombardia como sua pátria – o que lhe permitia insinuar o seu parentesco com os Colombos nobres dessa cidade – descai-se no capítulo V a dizer que quando Colombo se salvou a nado da batalha do Cabo S. Vicente, se dirigiu a Lisboa dove sapeva che si trovavano molti della sua nazione genovese; ... essendo conosciuto da loro ... i.e. "onde sabia que se encontravam muitos da sua nação genovesa; ... sendo deles conhecido ..." {5}

 

ACC:

Na obra de D. Hernando consta efectivamente, no cap. V

E poiché non era lontano da Lisbona, dove sapeva che si ritrovavano molti della sua nazione genovese, più presto che potè si trasferì quivi dove, essendo conosciuto da loro, gli fu fatta tanta cortesia e sì buona accoglienza che mise casa in quella città e tolse moglie.

Precisamente no mesmo cap. V em que se relata a batalha naval do cabo S. Vicente, que D. Hernando descreve com uma precisão tal que a permite situar em 1485, sem outra hipótese alternativa, tendo os historiadores, incluindo o Prof. Thomaz (Cristóvão Colombo, o Genovês, meu tio por afinidade) decidido que ele se enganou:

"Como veremos, D. Hernando confunde no entanto a batalha naval de 13 de Agosto de 1476 com a que se travou nove anos mais tarde, a 21 do mesmo mês, em que o tal Colombo-o-Moço ou Jorge Bissipat tomou parte ao serviço da França, atacando uma urca flamenga e quatro galeaças venezianas em que vinha para Portugal o primeiro embaixador veneziano". (in THOMAZ, L.F., Op. cit; págs. 53/54).

 

Como Bartolomé de las Casas na sua História das Índias (Tomo I, cap. IV, pág. 52), refere também a ida de Colombo para Lisboa onde havia muitos da sua nação genovesa, e las Casas faleceu (1566) antes da publicação em italiano (1571) da História do Almirante de Hernando Colón, será seguro deduzir que teve acesso ao manuscrito original de D. Hernando, em castelhano, não podendo ser aduzido que a referência à nação genovesa se trate de interpolação do editor ou do tradutor de D. Hernando.

O que deve ter-se em consideração, tal como invoca o Prof. Thomaz, é que D. Hernando escreveu a História do Almirante em plena fase dos Pleitos colombinos, contra a Coroa espanhola, e que, por isso, era necessário continuar a narrativa que atribuía ao Almirante a origem genovesa. No momento próprio, i.e. em resposta à 'prova' correspondente, será abordada a génese desta narrativa.

De qualquer forma saliente-se a incongruência dos historiadores que decidiram que D. Hernando se enganou na batalha, mas aceitam como boa a descrição dos acontecimentos subsequentes.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Colombo genovês, o tio errado #3 ('Prova' 4)


'Prova' {4} - pág. 51:

Em contrapartida sabe-se que em 1633 o 5º Duque de Verágua, D. Álvaro Jacinto Colón de Portugal y la Bastida, tetraneto de Cristóvão Colombo, no regresso de uma viagem à Flandres, visitou Gènova, onde foi recebido com todas as honras. O Sereníssimo Senado da República enviou o sub-chanceler Mercante a saudá-lo nos Paços do príncipe de Valdetaro onde pousava; e o Duque correspondeu a essa amabilidade, enviando dizer ao Senado que "tendo ele origem em damas genovesas, se estimava filho daquela república e teria como seu ofício servi-la e honrá-la com o título de Sereníssima ou por qualquer outra maneira que lhe fosse possível" {4}

 

ACC:

Pode aceitar-se como estando publicado o documento / bibliografia onde constará este episódio, o que não é relevante para o caso,. Note-se que D. Álvaro Jacinto deveria ter tanto conhecimento sobre a origem familiar do seu tetravô como tinham os seus antecessores, isto é, neblina e boatos da origem genovesa. Como tal, não é de surpreender que em viagem a Génova resolvesse ser simpático para com os seus anfitriões e se intitulasse de origem em damas genovesas. Hoje em dia ainda há quem ache que, mesmo por afinidade, tem relação familiar com as mesmas damas. Certamente que 'damas' era um tratamento reservado às mulheres dos tecelões !!!


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Colombo genovês, o tio errado #2 ('Provas' 2, 3)

 

'Provas' {2} e {3} - pág. 41:

... É deste velho preconceito que provém a irritação de D. Hernando - que, sem embargo, se ufanava das suas  origens italianas, como teremos ocasião de ver, contra Giustiniani:

Pelas quais palavras manifesta cousa é que ele não exerceu arte mecânica ou manual, pois ele próprio diz que (CC) empregou a puerícia em aprender as letras e a juventude na arte navigatória e na cosmografia, e a sua idade adulta nos descobrimentos. De modo que o mesmo Giustiniani é convicto de falso historiador e se dá a conhecer por inconsiderado, ou parcial, ou malévolo conterrâneo {2}, pois falando ele de uma pessoa assinalada e que tanta honra trouxe à sua pátria {3} de que o mesmo Giustiniani se fez cronista ...

 

ACC:

Não é Hernando Colon quem afirma que seu pai, o Almirante, era conterrâneo e da pátria de Giustiniani. É o genovês Giustiniani, no Psalterio e nos Annali di Genova, quem atribui a origem genovesa ao Almirante. Como tal, Hernando critica o genovês Giustiniani por este lançar boatos sobre uma pessoa a quem chamou sua conterrânea.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Colombo genovês, o tio errado #1 ('Prova' 1)

'Prova' {1} - pág. 39: 

Giustiniani repete quase ipsis verbis o que escrevera Antonio Gallo, notário em Génova entre c. 1491 e 1510 e chanceler do Ufficio di San Giorgio, a quem, além de três comentários sobre história genovesa, se deve um Comentariolus datado de 1506 sobre a descoberta da América... 
"Cristóvão e Bartolomeu Colombo, irmãos, lígures de nação e nascidos em Génova {1}, de pais plebeus, que foram outrora cardadores de lanifícios, pois o pai era tecelão, e viveram de seu salário, alcançaram neste tempo grande celebridade por toda a Europa, pela sua audacíssima proeza e memorável novidade entre as humanas cousas." 

 ACC: 

Síntese:

A) Em 1506, Antonio Gallo demonstrou desconhecimento sobre a 'audacíssima proeza', a 1ª viagem do Almirante Cristóvão Colon (1492-93), porque:

- o seu irmão Bartolomeu Colon não participou nessa 1ª viagem,

- Bartolomeu só chegou a Castela, vindo de Inglaterra e França, depois dos seus dois irmãos, Almirante Cristóvão Colon e Diego Colon, terem partido para a 2ª viagem em Setembro de 1493, e

- os Reis Católicos entregaram-lhe três navios para se ir juntar aos irmãos, tendo ele chegado à Hispaniola em Julho de 1494. No documento de entrega é designado por Don Bartolomé Colon.

B) Gallo poderia saber da existência da família dos tecelões Colombo de Génova, mas

- não se atreveu a colocar Giacomo Colombo, irmão do Cristoforo Colombo, na pele de Diego Colon, um dos irmãos Colon.

C) O seu testemunho não tem valor probatório, porque só indirectamente terá tido conhecimento da 1ª viagem do Almirante Colon, através da divulgação em toda a Europa da carta que este remeteu, de Lisboa, ao tesoureiro dos Reis Católicos, carta em que o nome Colon foi deturpado, a dado passo da cadeia de divulgação.



Antonio Gallo poderia, eventualmente, conhecer razoavelmente ou ter-se informado sobre a existência da família dos tecelões Colombo. No entanto, demonstra que nada conhecia directamente sobre a viagem do Almirante Cristóvão Colon. O irmão Bartolomeu Colon não participou na descoberta, ou seja na 'audacíssima proeza'. Portanto, o Bartolomeo Colombo não teria participado junto com o Cristoforo Colombo caso fosse este o Almirante como defende o Prof. Thomaz. Além disso, no ano em que Gallo escreveu o 'Comentariolus' já deveria saber que havia três irmãos Colon envolvidos no conjunto das viagens e colonização: Cristóvão, Bartolomeu e Diego.

Diego Colon viajou logo com o Almirante na segunda viagem, iniciada em Setembro de 1493 e Bartolomeu só viajou para a Hispaniola em 1494, onde terá chegado em Julho, porque os Reis Católicos, quando este se apresentou na corte após regressar de Inglaterra e França, lhe tinham entregado três navios para que se juntasse a seu irmão. Nos respectivos documentos oficiais é designado por Don Bartolomé Colon. Mas, António Gallo apesar de aparentemente conhecer a família dos tecelões e saber da existência do Jacomo Colombo não se atreveu a chamar-lhe Diego Colon.

O testemunho de Gallo (Antonii Galli Navigatione Columbi per inaccessum antea Oceanum Commentariolus, in MURATORI, Ludovico - Rerum Italicarum scriptores, Vol. XXIII, 1733, págs. 301-304)  não tem assim nenhuma fiabilidade probatória porque resulta apenas do eventual conhecimento directo da existência da família dos tecelões Colombo e de conhecimento indirecto da viajem do Almirante Colon que foi divulgada em toda a Europa a partir da carta que este remeteu desde Lisboa para o tesoureiro dos Reis Católicos, Luis de Santangel. A dado passo dessa cadeia de divulgação houve deturpação no nome do Almirante, como se descreverá oportunamente.


Colombo genovês - o tio errado

Em Setembro deste ano teve lugar na Academia de Marinha uma sessão de apresentação do livro «Cristóvão Colombo, o Genovês, meu tio por afinidade» e entrega do prémio Almirante Teixeira da Mota ao seu autor, Prof. Luís Filipe Ferreira Reis Thomaz. A obra mereceu rasgados elogios do júri e foi mesmo considerada como prova definitiva da identidade e naturalidade do chamado descobridor da América. Trata-se efectivamente de um livro excelente, talvez um pouco volumoso em excesso devido a numerosa quantidade de informação lateral ao tema principal, bem como à deslocada crítica aos precursores da contestação à tese oficial, ou no mínimo oficiosa, do Colombo genovês. Bastante completo no que diz respeito aos dados sobre as viagens do Almirante Colon, contém também vária informação sobre o Cristoforo Colombo genovês. Consideramo-lo muito interessante para os seguidores da tese 'genovista' e de enorme utilidade para aqueles que, como nós, têm razões para a considerar o resultado de uma deturpação do nome e depois da adulteração de relatos e da contrafacção de documentos. Obviamente que não concordamos que o livro seja a prova definitiva da identidade e naturalidade do Almirante Colon pelo que nos propomos analisar e dissecar cada uma das alegadas provas enumeradas ao longo do livro, apresentando aqui, gradual e sequencialmente neste blogue o respectivo contraditório. Os textos que aqui apresentaremos são da responsabilidade da ACC, resultando de contributos dos seus Membros e de sessões de Debate aberto promovidas on-line com outros interessados externos. ACC Carlos Calado

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Sessão on-line 17 Abril, 16h.

 Caros amigos e interessados no tema,


Contamos com a vossa participação na conferência do próximo sábado «Consequências da vinda a Lisboa de Cristóvão Colon»

Associação Cristóvão Colon convida-o para uma reunião Zoom agendada.

Tópico: Zoom meeting invitation - Reunião Zoom de Carlos Alberto Calado
Hora: 17 abr. 2021 04:00 da tarde Lisboa

Entrar na reunião Zoom
https://us04web.zoom.us/j/73854503957?pwd=Mk5PTS9yUHE3c1loSUowYmtkdE9QQT09

ID da reunião: 738 5450 3957
Senha de acesso: vc52dx