sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Colombo genovês, o tio errado #22 ('Prova' 40)

'Prova' {40} - pág. 226:

Do nosso ponto de vista ... aquela oferta de serviços aos Reis de Inglaterra e de França ... inviabiliza a ideia de que Colombo tivesse actuado como agente de D. João II para atrair para o Novo Mundo as atenções de Espanha, e assim as desviar das verdadeiras ìndias. Que teria sucedido se Henrique VII de Inglaterra que c. 1490 recusou os serviços de Colombo mas veio uns quatro anos mais tarde a aceitar os de João Caboto, ...  tivesse aceitado a oferta do primeiro.

D. João II jamais poderia incorrer tamanho risco ...

 

ACC:

Entre o que escreveu o Almirante em carta dirigida aos membros do Conselho c. 1501, na qual afirma que: “Já vão 17 anos que eu vim a servir estes Príncipes com a empresa das Índias … Eu com amor prossegui nela e respondi a França, a Inglaterra e a Portugal que para o Rei e Rainha, meus Senhores, eram essas terras e senhorios”

E o que escreveu, dezenas de anos mais tarde, Hernando Colon:

“Ma temendo, se parimente i re di Castiglia non assentissero alla sua impresa, non gli bisognasse proporla di nuovo a qualche altro principe, e così in ciò passasse lungo tempo, mandò in Inghilterra un suo fratello che aveva presso di sé, chiamato Bartolomeo Colón, … cominciò a far pratiche col re Enrico Settimo… Ma, tornando al re d'Inghilterra, dico che da lui il mappamondo veduto e ciò che l'Ammiraglio gli offriva, con allegro volto accettò la sua offerta e mandollo a chiamare. Ma, perché Dio l'aveva per Castiglia serbata, già l'Ammiraglio in quel tempo era andato e tornato con la vittoria della sua impresa, …

(Historie, cap. XI)

(…)

… in Spagna, e che tardava troppo a dare effetto alla sua impresa, deliberò di andare a trovare il re di Francia, al quale già aveva scritto sopra questo, con proponimento, se quivi non fosse udito, di andar poi in Inghilterra a cercare il fratello, del quale non aveva novella alcuna.

(Historie, cap. XII bis)

(…)

Perché, quantunque l'Ammiraglio fosse già fuori d'ogni speranza e sdegnato, vedendo il poco animo e giudizio che trovava nei consiglieri delle Altezze loro, nondimeno, per il desiderio che dall'altra parte era in lui di donar questa impresa alla Spagna, …. Il che fu cagione ch'egli aveva rifiutate le altre offerte che gli altri principi gli avevano fatte, … sì come egli riferisce in una sua lettera scritta alle loro Altezze, dicendo così:

«Per servir le Altezze vostre io non ho voluto impacciarmi con Francia, né con Inghilterra, né con Portogallo, dei quali principi le Altezze vostre videro le lettere per mano del dottor Viglialano».

(Historie, cap. XII bis)

 

O autor opta por dar preferência ao que escreveu Hernando a propósito das propostas a Inglaterra e França, desprezando, simultaneamente, quer o que escreveu o Almirante, quer também esse mesmo escrito que Hernando reproduziu e onde o Almirante afirma que Suas Altezas viram as cartas escritas pelos Príncipes (de Inglaterra, França e Portugal).

 

Note-se ainda as inconsistências cronológicas de D. Hernando no relato das propostas a Inglaterra e França, pois afirma que quando o Rei de Inglaterra decidiu aceitar a proposta que Bartolomeu lhe tinha apresentado (em Fevereiro de 1488), já o Almirante tinha regressado da sua viagem (Março 1493) – enquanto o Prof. Thomaz escreve que Henrique VII a recusou c. 1490 - e que o próprio Almirante pensou ir pessoalmente a França (1492) e depois seguir para Inglaterra ao encontro do seu irmão – e assim não incumbira o irmão de a apresentar ao Rei de França

Portanto, Bartolomeu Colon, que partira em 1485 para Inglaterra com o intuito de apresentar a proposta ao Rei, tinha-se demorado nada mais nada menos que oito anos, e pelo menos cinco deles após essa apresentação. Se o objectivo era não perder tempo caso Castela recusasse, muito mal andou Bartolomeu. E depois ainda ficou por França, onde acabou por saber que o irmão já tinha feito a viagem às ‘Indias’, regressado a Castela e partido novamente para segunda viagem.

 

Tudo somado, torna-se mais nítida uma certa forma de pressão para que os Reis Católicos se decidissem a aceitar.

Muito estranho é ainda que o Almirante tenha mostrado aos Reis Católicos uma carta do Rei de Portugal a aceitar a sua proposta. Não consta nas crónicas portuguesas que D. João II recusou? Ou será que foi apenas uma encenação?

De qualquer forma, o que o Prof. Thomaz considera a prova {40} nada tem a ver com a pretensa genovesidade do Almirante.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Colombo genovês, o tio errado #21 ('Provas' 38, 39)

 

‘Prova’ {38} - págs. 224/5:

Razão teria Barnaba Caserio Cigala ao escrever, [referindo a proposta de Colombo, por intermédio de seu irmão Bartolomeu] em exposição enviada ao doge e ao senado de Génova entre 1601 e 1616:

Se Henrique VII, Rei de Inglaterra, tivesse atendido a Cristóvão Colombo genovês {38} a metade do mundo seria presentemente não de espanhóis mas de ingleses.

 

ACC:

A questão que se coloca é mesmo a de saber se corresponde à realidade aquilo que Bartolomé de las Casas ou Hernando Colón escreveram. Será que o tecelão Bartolomeo Colombo foi apresentar ao rei de Inglaterra a proposta do seu irmão? Ou era o cartógrafo e navegador Bartolomeu Colon quem se deslocou à corte de Inglaterra e depois à corte de França com outros objectivos?

Como se atribui veracidade a quem não está por dentro dos acontecimentos e escreve umas dezenas de anos depois de terem ocorrido e se despreza o testemunho dos próprios intervenientes, argumentando que foi Cristóvão, com a sua habitual propensão para exagerar e aformosear as coisas quem utilizou o facto a seu favor, dizendo que recusara as ofertas que recebera daqueles reis?


‘Prova’ {39} - pág. 225:

Foi durante a sua estadia em Inglaterra que Bartolomeu desenhou um mapa, que ofertou a Henrique VII ..., que embora não tenha chegado até nós, constitui um importante testemunho da genovesidade dos Colombos.

São D. Hernando e Las Casas quem nos revela a sua existência, copiando a sua legenda poética:

... Um, de quem Génova é pátria e o nome Bartolomeu Colombo de Terra Rubra, esta obra produziu em Londres, no ano do Senhor MCCCCLXXX com oito anos por cima, no dia décimo terceiro de mês de Fevereiro ...

 

ACC:

Ora o mapa, que não chegou até nós, constitui, para o Prof. Thomaz, um importante testemunho da genovesidade dos Colombos. Essa genovesidade seria então confirmada pela legenda poética no mapa oferecido a Henrique VII.

Milagrosamente talvez, o mapa não chegou até nós, mas a sua legenda chegou, pelo menos às mãos de Hernando Colón e Las Casas, que a reproduziram. Dissociou-se do mapa?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Colombo genovês, o tio errado #20 ('Provas' 34-37)

‘Prova’ {34} - pág. 201:

A ideia de que foi na Madeira que Colombo juntou os indícios da existência de terras a oeste e arquitectou o seu plano era no século XVI consensual; Francisco López de Gómara (1511-66) que não pode ter conhecido nem a obra de D. Hernando nem a de Las Casas, dá da génese do projecto colombino uma versão romanesca:

...(relato de caravela que se perdeu e o único sobrevivente foi morrer na casa de Cristóbal Colón na Madeira)

Parésceme que si Colon alcanzara por esciencia [i.e. por leituras] donde las Indias estaban, que mucho antes, y sin venir á España {i.e. à Península Ibérica}, tratara con genoveses, que corren todo el mundo por ganar algo, de ir á descubrillas.{34}

 ACC:

Não é apenas de agora nem tampouco desde há uma centena de anos que os mais atentos e exigentes consideram inaceitável, por inverosímil, a versão oficializada da história do Colombo genovês, tecelão numa família de tecelões, que se transformou em grande navegador e se tornou Almirante em resultado da viagem que concretizou até ao outro lado do oceano.

Se já no século XVI, como escreve o Prof. Thomaz, era consensual que foi na Madeira que o Colombo genovês teria arquitectado o seu plano, também só uma versão romanesca da génese desse plano permitiria adequar o inusitado protagonista a tão inacreditável cenário.

Dando destaque a esta inventada obra do acaso, o autor apagaria assim da História o conhecido interesse, empenho e envolvimento dos portugueses na busca de terras longínquas no Atlântico, apagaria os contactos entre D. Afonso V e o florentino Toscanelli e consequentemente a troca de correspondência deste com o futuro Almirante sobre a forma de alcançar a Ásia navegando para Poente.

‘Prova’ {35} - pág. 201-202:

Já anos antes o licenciado de Tudela registara em latim uma tradição semelhante, numa página em branco do seu exemplar das Décadas ... só que aí o piloto que à hora da morte revelou a Colombo o descobrimento fortuito que fizera era, como ele, genovês:

Christoforus Colon natione Genuensis pauper hauitauit Portugalie per multos annos in insula de la Madera , ...

“Cristóvão Colon, de nação genovês, pobre, habitou em Portugal por muitos anos, na ilha da Madeira, onde por acaso vieram alguns da sua pátria, que navegaram com uma grande tempestade e correram até às ilhas novamente achadas; e quando o piloto adoeceu até à morte, deu ele próprio ao dito Cristóvão Memória daquelas regiões, no ano de 1475, de onde o próprio Colón se dirigiu ao Rei de Portugal Afonso; e sucedeu que por ele estar ocupado nas guerras de Castela o não ouviu; e assim o dito Cristóvão dirigiu-se ao Rei de Castela Fernando …”

ACC:

Não lhe tendo bastado apresentar como pretensa prova da genovesidade do Almirante a anteriormente citada versão romanesca do piloto moribundo, o Prof. Thomaz chega ao ponto de escrever sobre o apontamento do licenciado Tudela:

“A história nada tem de inverosímil, mas é impossível controlá-la por outras fontes. A ser autêntica explicaria cabalmente a súbita e apaixonada conversão de Colombo da mercancia à marinharia.” 

Vale por isso a pena transcrever a tradução do texto do licenciado Tudela, mais completo, apresentada na pág. 202:

“Cristóvão Colón, de nação genovês, pobre, habitou em Portugal por muitos anos, na ilha da Madeira, onde por acaso vieram alguns da sua pátria, que navegaram com uma grande tempestade correram até às ilhas novamente achadas; e quando o piloto adoeceu até à morte, deu ele próprio ao dito Cristóvão memória daquelas regiões, no ano de 1475, de onde o próprio Colón se dirigiu ao rei de Portugal Afonso; e sucedeu que por ele estar ocupado nas guerras de Castela, o não ouviu; e assim o dito Cristóvão dirigiu-se ao rei de Castela Fernando, e assim fez a primeira viagem no ano de 1492, e descobriu as ilhas Espanhola e Fernandina e muitas outras”

 

Como então se vê, acha o Prof. Thomaz que esta historieta nada tem de inverosímil, alheando-se que já jurou a pés juntos (págs. 149-155, 158) que o Colombo genovês chegou a Portugal na sequência de um ataque corsário a navios genoveses em Agosto de 1476. Portanto, na conveniente visão do Prof. Thomaz, Colombo já cá vivia antes de ter chegado!

Só no final da pág. 203 vem o autor afirmar que:

“jamais poderia ser em 1475 como afirma o licenciado Tudela, uma vez que aquele só aterrou em Portugal no ano imediato… mas ninguém esperaria grandes rigores cronológicos de uma mera tradição oral.”

 Claro! Não há rigores cronológicos numa mera tradição oral. Mas o Prof. Thomaz acredita que há rigores factuais.

‘Prova’ {36} - pág. 202:

Nos escritos de Piri Reis, que conhecemos já, a história da génese do plano colombino é apresentada de forma não menos romanesca, mas sensivelmente diferente: ainda em Génova, Colombo teria descoberto um livro antiquíssimo ...

Lê-se, com efeito, na mais extensa das legendas do seu mapa-mundi de 1513 ...

"Estas costas são chamadas 'litoral da Antília'. Foram descobertas no ano 896 do calendário árabe, o que é narrado assim: houve um cafre (infiel) genovês, cujo nome era Qulumbu, que foi quem descobriu essas partes {36}

ACC:

Muda a fonte da informação, mudam os detalhes, mas o erro inicial persiste.

‘Prova’ {37} - pág. 203:

A história repete-se, com pequenas variantes, no Kitab-i Bahriye do mesmo Piri Reis, redigido em 1521 e revisto em 1524 ...:

Em Génova havia um astrólogo cujo nome era Qulun; caiu em seu poder um livro curioso, que era sem dúvida do tempo de Alexandre... e usando-o Qulun navegou e atingiu as Antilhas.

ACC:

É interessante assistir ao modo como estas pretensas provas apresentadas pelo autor vêm confirmar um velho ditado: quem conta um conto acrescenta um ponto.

Neste caso, o tecelão Colombo de Génova afinal era um astrólogo chamado Colon, trocando os nomes e as profissões. Quanto ao valor probatório destes textos romanceados, parece que continua a ser considerado elevado apenas para os mais dogmáticos, ou para aumentar o volume do que se escreve, impressionando os leitores menos familiarizados ou menos atentos.


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Colombo genovês, o tio errado #19 ('Prova' 33)

'Prova' {33} - pág. 164:

Na terceira viagem, à partida, por saber andarem corsários franceses nas paragens do Cabo S. Vicente, Colombo decidiu rumar directamente de Sanlúcar de Barrameda ao Porto Santo, a tomar lenha, refresco e água; e tendo aí chegado a uma quinta-feira seguiu no Domingo imediato para a Madeira. En la villa le fué hecho muy buen recibimiento y mucha fiesta, por ser allí muy cognosçido, que fué vezino d'ella en algún tiempo {33}

 ACC:

Estranha justificação do Almirante para a sua paragem em Porto Santo e Madeira, quando seria suposto navegar directamente para as Canárias como acontecera nas viagens anteriores. Para evitar os corsários franceses do Cabo S. Vicente bem poderia manter o rumo para as Canárias pois ficaria ainda mais afastado dos corsários do que ficou desviando-se para o arquipélago da Madeira.

Basta atentar ao registo da 1ª viagem no Diário:

Viernes, 3 de agosto

Partimos viernes tres días de agosto de 1492 de la barra de Saltés, a las ocho horas. Anduvimos con fuerte virazón hasta el poner del sol hacia el Sur sesenta millas, que son quince leguas; después al Sudoeste y al Sur cuarta del Sudoeste, que era el camino para las Canarias.

 

Mas mais surpreendente e mesmo bizarro é que o Prof. Thomaz considere que o facto de o Almirante Colon ser muito conhecido no Funchal, por ter sido ali morador, seja uma prova da sua origem genovesa.

Esqueceu o autor os seus próprios argumentos pois, na pág. 164 justifica que o Colombo era muito conhecido na Madeira porque, tendo lá ido comprar açúcar (algo que teria ocorrido em 1478 segundo o documento Assereto), não se sumiria de seguida, ao cabo de poucos dias, a bordo da nau de Palêncio. De facto não se sumiu de seguida, pois no seu depoimento dá a entender que lá ficou pelo menos até Janeiro de 1479, aguardando que Paulo di Negro lhe enviasse mais dinheiro para os pagamentos. Mas em 25 de Agosto de 1479 estava em Génova, no âmbito desse processo movido por Centurione contra os Di Negro, para regressar a Lisboa no dia seguinte. E na pág. 161, presume o Prof. Thomaz que tendo Colombo chegado a Lisboa em 1476 haja prontamente achado emprego na representação das casas comerciais para que trabalhava havia já quatro anos, e portanto em Fevereiro de 1477 andaria pelas Ilhas Britânicas.

Como tal, não ficou na Madeira alguns poucos dias, mas sim apenas alguns meses, ainda que involuntariamente. Seria tempo suficiente para que o Colombo do Assereto fosse muito conhecido e recebido em festa?


Esqueceu também o autor que o Almirante Colon casou com a filha do capitão donatário do Porto Santo e que ambos para lá foram viver, tendo depois mudado a residência para o Funchal, onde, segundo vários autores, entre os quais Agostinho de Ornellas (Memória sobre a residência de Christovam Colombo na Ilha da Madeira, Typographia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1892), habitaram na chamada casa do Esmeraldo? O Almirante seria então muito conhecido e recebido em festa no Funchal por ser o navegador que casara com a filha do capitão donatário de Porto Santo e lá habitara, ou por ser o agente comercial que ficara ‘pendurado’ sem dinheiro para pagar o açúcar que encomendara?

 


domingo, 9 de janeiro de 2022

Colombo genovês, o tio errado #18 ('Prova' 32)

 'Prova' {32} - pág. 162:

...foi por isso [a falhada compra de açúcar na Madeira] que Lodisio Centurione abriu junto do Venerando Ofício da Mercancia de Génova um processo, em que Colombo foi chamado a depor.


ACC:

O autor descreve (pág. 162) resumidamente o motivo que levou Lodisio Centurione a abrir um processo em que um Cristoforo Colombo foi chamado a depor, e que é conhecido como Documento Assereto, largamente refutado por vários motivos.

O próprio Prof. Thomaz reconhece:

“É verdade que o documento, embora em papel, tinta e letra típicos da época, levanta algumas pequenas dificuldades…: não é todo da mesma mão, certamente porque houve um amanuense encarregado de tomar o depoimento de cada testemunha e não o prestaram todos ao mesmo tempo, mas uma a 23 e as outras a 25 de Agosto; o nome de baptismo de Colombo aparece grafado tanto Christoforus, como Cristoforus e mesmo Cristofforus, consoante os escribas; a identificação das testemunhas é sumária, nem sempre se indicando a sua filiação, e os depoimentos não vão assinados. No entanto não há qualquer indício de que o documento tenha sido falsificado.”

 

Por aquilo que escreve, nota-se que o Prof. Thomaz não conhece a fundo o dito documento, escrevendo com base em informação alheia.

O processo foi movido por Lodisio Centurione contra Paolo di Negro e seu irmão Cazano, aos quais tinha encomendado a compra de açúcar, que pagou na totalidade. Os Di Negro não eram, portanto testemunhas inquiridas juntamente com Colombo, mas sim acusados e nessa condição foram informados para que pudessem assistir no Ofício da Mercancia à audição da testemunha Cristoforo Colombo, se assim o desejassem.

Em 1478 Paolo di Negro enviou Cristoforo Colombo à Madeira, mas apenas lhe entregou uma pequena parte do dinheiro para a compra de açúcar, pelo que esta não pôde ser integralmente concretizada. Cristoforo Colombo é no ano seguinte arrolado como testemunha de Centurione precisamente para responder aos quesitos estabelecidos pelo Ofício da Mercancia. Não há indicação nem, portanto, inquirição de outras testemunhas, pelo que a justificação de que existem distintas caligrafias devido a esse motivo não tem validade. Estranhamente o depoimento da testemunha Cristoforo não é tomado no Ofício da Mercancia mas sim no escritório de Centurione, sem indicação de quem o registou. E existem vários tipos de caligrafia, seis no total, estando três delas na mesma página. Há diversas palavras riscadas e intercalações. A ordem dos quesitos não é respeitada entre as fases do processo, e o texto correspondente ao dia 25 termina abruptamente no final da página 5. O dito documento é composto por 14 páginas preenchendo seis fólios, mas os dois primeiros fólios não se encadernam entre si nem com os restantes, configurando assim fólios soltos.

Estes factos que se constatam significam que este documento não é uno, havendo pelo menos dois corpos distintos com diferentes métodos de escrita e processos de encadernação ou arquivamento incompatíveis entre si.

Por essas incompatibilidades, porque não pertence a um livro oficial de registos e porque apresenta palavras riscadas, não é um original e não pode sequer ser classificado como uma minuta. Na melhor das hipóteses poderia ser um rascunho. E então porque se guardaria um rascunho e não uma minuta e não o documento oficial?

As perguntas a Cristoforo Colombo parecem talhadas à medida para confirmar o Colombo tecelão. Pergunta-se que idade tem, algo descabido no contexto do processo. Em mais de uma centena de registos oficiais publicados na Raccolta, só é referida a idade dos intervenientes no caso de jovens que são colocados como aprendizes e no caso de uma testemunha que acabara de atingir a maioridade para depor.

Colombo apenas sabe que foi enviado para comprar açúcar à ilha da Madeira, fretando o navio de Fernando Palêncio, sem contudo levar o dinheiro suficiente. Não pode comprovar que Lodisio pagou a Paulo de Negro. E Lodisio não tem um contrato ou um recibo? Uma estória inacreditável num pretenso documento, de que, lamentavelmente, se diz que apenas apresenta algumas pequenas dificuldades. E sobre este Cristoforo Colombo, cidadão de Génova, não se prova que seja o Cristoforo Colombo filho de Domenico e muito menos se comprova que seja o depois Almirante Colon.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Colombo genovês, o tio errado #17 ('Prova' 31)

 

'Prova' {31} - pág. 161:

O que Colombo diz das enormes marés que na zona (ultra Tile) se registavam corresponde ao natural espanto de um homem do Mediterrâneo, onde a sua amplitude se escalona entre os 20 e os 50 cm, consoante os lugares - e coaduna-se assim inteiramente com a origem genovesa do futuro achador do Novo Mundo.

 

ACC:

O Prof. Thomaz reproduz na pág. 160 o texto que afirma estar anotado num escólio à margem do exemplar da Historia Rerum … de Eneas Sílvio. No entanto, em nenhuma das 861 anotações autógrafas do Almirante na Historia Rerum, publicadas na Raccolta, se encontra esse texto. Tal como não se encontra em nenhuma das 898 anotações autógrafas no Tratado Imago Mundi, de Pierre d’Ailly, nem em nenhuma das 366 anotações no Livro ‘Viagens’ de Marco Polo, nem nas 24 na Historia de Plínio, tampouco nas 436 no Vidas Paralelas, de Plutarco. Não consta assim de nenhuma anotação autógrafa publicada, mas é mencionado por Hernando Colon, no capítulo IV da Historie, como tendo sido visto numa memória ou anotação de seu pai, sendo repetido por Las Casas.

D. Hernando pode ter ou não trocado a unidade de medida, substituindo pés por braças. Se fossem pés, então a amplitude daquelas marés seria efectivamente idêntica às máximas amplitudes observadas no planeta, de 16,3 metros.

Se D. Hernando, porém, escreveu correctamente a unidade, certamente que o Almirante exagerou, o que não era raro, ao referir a amplitude das marés que presenciou. Mesmo que ele fosse um homem do Mediterrâneo como crê o autor, sabe-se que navegou no Atlântico nos navios dos descobrimentos, e as marés atlânticas são incomparavelmente de maior amplitude que as mediterrânicas. Como tal, quem só tiver observado as minúsculas marés mediterrânicas fica admirado com marés relativamente grandes no Atlântico. Mas quem já estiver familiarizado com estas, será levado a ficar espantado e a exagerar a amplitude de outras ainda maiores como as que terá visto o Almirante.

Fica por determinar até onde chegou a expedição mencionada na Historie por D. Hernando, embora o Prof. Thomaz se esmere na tentativa de apoucar o relatado. Presume que se trata da mesma expedição comercial armada em Génova em Dezembro de 1476 com destino às Ilhas Britânicas e assim conclui (pág.160) que:

“Uma vez que para lá da Islândia não havia praticamente terra alguma povoada com que se pudesse traficar, não se compreende porque razão andaria uma expedição comercial e não de exploração geográfica a fazer cem léguas mais além, em pleno inverno … É verdade que a 73º N e a c. 100 léguas para lá da Islândia se situa um ponto da costa da Gronelândia; não se vê razão para que o objectivo de uma viagem de comércio fosse a Gronelândia, ao tempo apenas povoada de esquimós.”

 Embora aflore o tema, o Prof. Thomaz rapidamente descarta a hipótese de se ter tratado efectivamente de uma expedição de exploração geográfica, desvalorizando relatos e crónicas que mencionam uma expedição luso-dinamarquesa promovida pelo rei Cristiano I da Dinamarca por solicitação do rei português D. Afonso V, comandada por Johannes Scolvus e que se iniciou em 1476.

Amarrado à narrativa do envolvimento do seu Colombo nos navios genoveses atacados em 1476, o Prof. Thomaz efabula os acontecimentos que se seguiram de modo a tentar manter de pé a sua história, o que o leva a desprezar outros factos que melhor se adequam e melhor reflectem a realidade.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Colombo genovês, o tio errado #16 ('Provas' 29, 30)

'Provas' {29} e {30} - pág. 158:

Cristóvão Colombo viera para Portugal em 1476, nas circunstâncias fortuitas que há pouco vimos. Só não resulta claro se se fixou em Lisboa por seu irmão Bartolomeu aí residir já ao tempo, exercendo o mester de cartógrafo. Assim o afirmam tanto Bartolomeu Senarega como Agostino Giustiniani {29}, aparentemente na trilha de Antonio Gallo, notário em Génova entre c. 1491 e 1510 e chanceler do Uffício di San Giorgio, a quem, além de três comentários sobre história genovesa, se deve um Comentariolus datado de 1506 sobre a descoberta da América {30}

 

ACC:

Uma frase do próprio Almirante Colon, em que diz que andou 14 anos a servir esse rei (D. João II), demonstra que tal aconteceu desde c. 1471, pois em 1485 foi para Castela.

O que vimos, em {25} foi que a chegada do Almirante a Portugal em 1476 não é senão a deturpação propositada do que foi escrito por D. Hernando Colón, de forma a fazer crer que ele se enganou na batalha naval ao situá-la num período que corresponde a 1485. Deturpa-se e insiste-se em 1476 para conseguir encaixar Colombo em navios genoveses.

Pois se Bartolomeo Senarega e Agostino Giustiniani afirmam que Bartolomeu, irmão do Cristoforo, já residia em Lisboa quando Cristoforo aí se fixou, estão ambos errados e é o próprio D. Hernando que o afirma, dizendo que Giustiniani mentiu, pois o Almirante já ali habitava antes e ensinou tudo ao irmão:

La prima adunque è, che l'Ammiraglio andò a Lisbona ad imparare la cosmografia da un suo fratello che quivi aveva: il che è il contrario, perché egli abitava in quella città avanti, ed insegnò al fratello quel che quegli seppe.

O Prof. Thomaz admite que:

“recentemente foi encontrado nos Arquivos notariais de Valência um contrato de 23.VIII.1479 pelo qual um tal “Bartolomeo Colom”, genovês, é recebido como aprendiz de Antonio di Piero, mestre tecelão de seda florentino residente em Valência, por cinco anos … é bem possível que se trate do irmão do nosso Cristóvão; mas isso não impediria que antes ou depois de ir residir em Valência tenha morado em Lisboa. A priori, o percurso mais lógico seria dedicar-se primeiro ao mister tradicional da família em Valência e reconverter-se em seguida à cartografia em Lisboa, onde a sua presença apenas está atestada c. 1485, quando Cristóvão o enviou a Inglaterra, a oferecer a Henrique VII o seu projecto de descobrimento”

 

Portanto, o autor aceita que pode tratar-se do irmão do Cristoforo Colombo aquele Bartolomeo genovês que foi para Valência. Já lhe será mais difícil demonstrar que este tecelão Bartolomeo Colom era o irmão do Almirante. De facto, após cinco anos de aprendizagem na arte de confeccionar damascos, o Bartolomeu teria vindo direitinho para Lisboa e logo de seguida enviado como emissário de alto estatuto para fazer uma proposta a Henrique VII.

Na realidade este Bartolomeo Colom genovês, aprendiz em Valência, não sendo o irmão do Almirante pode também não ser o irmão de Cristoforo, pois o Bartolomeo Colombo, filho de Domenico, consta numa procuração feita por seu pai em 16.VI.1480 em Savona (Raccolta Colombiana, Parte II, Vol. I, doc. LXV). Estando em Valência na aprendizagem  de confecção de damascos, não poderia estar ao mesmo tempo em Savona para ser procurador de seu pai.

D. Hernando terá, obviamente, razão pois quer a correspondência do Almirante com Toscanelli, que se pode datar de 1474-1475, quer uma carta do Almirante ao Rei Fernando o Católico (de que o Autor reproduz um extracto em {25}, em que ele afirma que durante 14 anos andou a tentar que o Rei D. João II concordasse com o que dizia), e que conduz até 1471, demonstram que o Almirante vivia em Portugal bem antes de qualquer data atribuída pelas diferentes visões genovistas.