segunda-feira, 7 de março de 2022

Colombo genovês, o tio errado #68 ('Prova' 112)

'Prova' {112} - pág. 756:

A 27.XII.1504 (Colombo) queixou-se por carta a Nicoló de Oderigo de não ter recebido nem resposta deste nem da Banca às suas cartas de 1502, o que lhe pareceu que descortesia fue deses Señores, tanto mais que soubera por Messer Francisco de Ribarol, que as dádivas haviam chegado a salvamento {112}

 

ACC:

Esta outra carta do Almirante está publicada na Raccolta, P. I, Vol. III, Série A, Tav. XXXIIII, com transcrição na pág. 34. É também apresentada como sendo dirigida a Oderigo embora só seja reproduzido o interior e não o reverso da folha, no qual estaria o nome do destinatário. É considerada autógrafa, isto é, escrita pela mão de Colon:

«Virtuoso Senhor,

Quando eu parti para a viagem de onde agora regresso falei-vos longamente.

Creio que de tudo isto vos recordareis bem.

Julguei que quando chegasse eu encontraria as vossas cartas e ainda pessoa com palavra [alguém que lhe falasse pessoalmente].

Também nesse tempo deixei a Francisco de Ribarol um livro de treslados de cartas e outro dos meus privilégios numa mala de couro cordovês tingido com o seu fecho de prata e duas cartas para o Ofício de S. Georgi ao qual atribuía eu o décimo da minha renda para desconto nos direitos do trigo e de outros abastecimentos.

De nada disto tudo sei notícias.

O senhor Francisco [Ribarol] diz que tudo chegou aí em segurança.

Se assim é, foi descortesia desses senhores de S. Georgi por não terem dado resposta nem por isso terem acrescentado a fazenda e isto é motivo para se dizer que quem serve a todos não serve a ninguém.

Outro livro dos meus privilégios como o sobredito deixei em Cádiz a Francisco Catânio, portador desta, para que também vo-lo enviasse.

Que um e outro fossem colocados em bom recato onde vos parecesse bem.

Recebi uma carta do Rei e da Rainha meus senhores nesse tempo da minha partida.

Ali está escrita; vêde-la que veio muito boa.

Desejo ver [receber] vossas cartas e que falem cautelosamente do propósito em que ficamos.

De Sevilha a 27 de Dezembro de 1504»

 

Esta outra carta, para além de ser considerada autógrafa, afigura-se também verosímil. O Almirante escreve a Oderigo após ter regressado da 4ª viagem e relembra Oderigo que falaram antes da partida para essa viagem, que ocorreu em 11 de Maio de 1502.

Em 21 de Março de 1502 tinha o Almirante escrito a Oderigo informando-o de que lhe enviava pelo portador Francisco de Ribarol o Livro das suas Escrituras e cópias de cartas. E que lhe enviaria um segundo Livro dos Privilégios que estava a ser terminado.

Agora, nesta segunda carta mostra-se descontente por não ter recebido nenhuma resposta de Oderigo, quer por carta quer por mensageiro em pessoa.

Sabe que Francisco de Ribarol entregou o primeiro Livro a Oderigo e que o segundo Livro seguiu com Francisco Catânio.

Nesse tempo em que estava de partida Colon recebeu uma carta dos Reis, na sua opinião, muito boa. Isto é, essa carta correspondia à insistência do Almirante sobre os seus direitos. Ora, efectivamente em carta de 14 de Março os Reis prometem-lhe mercês.

Colon pede a Oderigo que lhe escreva, mas que seja cauteloso nas palavras, porque o assunto é sigiloso, na carta não deve mencionar-se qual o assunto tratado entre o Almirante e Oderigo.

Ou seja, reforça que o objectivo do Almirante é que as cópias do Livro dos Privilégios fiquem em segurança [porque do que lá está escrito depende o futuro dos seus herdeiros].

Por incrível que pareça, não existiu sequer uma carta do Ufficio de S. Georgio a tentar retomar as conversas e beneficiar a República com a ‘generosa oferta’ depois de Colon se ter queixado a Oderigo em 1504.

Patética é a afirmação do Prof. Thomaz, quando escreve:

“… tanto mais que soubera por Messer Francisco de Ribarol, que as dádivas haviam chegado a salvamento.”

Dádivas? O Livro dos Privilégios e umas cartas são dádivas, ou o Prof. Thomaz quer iludir ainda mais os seus leitores menos atentos?

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