terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Colombo genovês, o tio errado # 31 ('Prova' 50)

{50} - págs. 258/9:

E por que motivo a 21.IV.1493 Jacopo Trotti, conselheiro do duque Hércules I de Este, transmitiu a este uma missiva recebida de seu irmão Aníbal Zennaro, escrita em Barcelona a 9.III.1493, em que este lhe comunicava o regresso das Antilhas da frota armada pelos Reis Católicos "a rogos de um chamado Colomba" {50}

 ACC:

Mais um magnífico exemplo do “rigorosíssimo critério” aplicado pelos genovistas na listagem de afirmações que nos atiram como provas da genovesidade do Almirante Colon.

Desta feita o Prof. Thomaz terá desencantado esta ‘prova’ na Raccolta – Parte III -Vol. I. Págs.141-142.

Esqueceu-se o Prof. Thomaz, porém, de confrontar a data apontada para a missiva de Aniballe Zennaro com os factos nela descritos.

Na verdade, o Almirante Colon chegou a Lisboa em 4 de Março e de Lisboa enviou para Barcelona a carta a Luís de Santángel. Efectivamente uma carta e uma adenda. Carta datada de 15 de Fevereiro “escrita na caravela sobre as ilhas das Canárias” – estando porém o Almirante nos Açores conforme consta no Diário. Adenda qua aponta para ter sido “escrita no dia da chegada a Lisboa”, mas cuja cópia paleográfica mostra a data de 14, tal como a versão impressa – estando o Almirante já em viagem no mar neste dia. Não existem assim certezas quanto à data da expedição da carta.

Ora esta carta, enviada de Lisboa quer fosse a 4 quer a 14 de Março, não poderia ter chegado ao destinatário em Barcelona sem tempo suficiente para percorrer essa distância ou antes de ter sido expedida, de forma que no dia 9 de Março Aniballe Zennaro escrevesse ao seu irmão a informar que:

“…uno ditto il Colomba …  dicto Collomba è retornato in dreto, et ha preso terra in Lisbona, et ha scripto questo a questo signore re; et dicto signore re gli ha scripto che subito vengha qua. io credo haverò copia de la littera quale epso ha scripto, et ve la mandarò …”

Ou seja, que:

o tal dito Collomba chegou a Lisboa e escreveu a este Rei [Fernando o Católico] e o Rei escreveu-lhe que venha depressa …

Portanto a carta de Aniballe Zennaro não pode ter sido escrita em 9 de Março, mas talvez em 9 de Abril.

Assim, em 9 de Abril, ainda o Almirante não tinha chegado a Barcelona para se encontrar com os Reis Católicos tal como estes lhe tinham ordenado e já os ecos da sua carta recebida pelos altos funcionários da Corte se propagavam de casa senhorial em casa senhorial e alcançavam também os grandes senhores e os mercadores da península itálica, deturpando o nome Christoval Colon que o identificava em Castela.

Por incrível que pareça, não há conhecimento de que alguma carta com esta notícia tenha sido enviada de Barcelona ou de algum outro lugar para Génova.

Por mais incrível que pareça, nem os ‘muitos da nação genovesa’ que habitavam em Lisboa terão exultado com o regresso do “seu compatriota Colombo” nem se apressaram a escrever para a República pátria. Nem se apressaram nem nunca o fizeram que tenha deixado rasto.

Seria tal o desconhecimento geral sobre o Almirante que, depois de nessa carta ao Duque de Ferrara, Jacobo Trotti se ter limitado a transcrever a missiva recebida, não de seu irmão como escreve o Prof. Thomaz, mas sim do irmão de Aniballe Zennaro o qual era Embaixador do Sacro Império em Milão, numa segunda carta ao mesmo Duque de Ferrara, Jacobo Trotti escreveu:

«Al mio illustrissimo signore il signore duca de Ferrara &c.

Scripssi a'dì passati a la vostra excellentia de quelle insole extranee trovate per quel Spagnolo, navicando, et li mandai la copia de una littera la quale me respondete che, se intendeva altro, gli ne desse adviso,…

Mediolani, .x. mai .1493.

Excellentie vestre servus

Iacobus Trottus.»

 Portanto, o tal dito Collomba da primeira carta era agora aquele Espanhol.

Mas Aniballe Zennaro não foi o único a enviar as notícias desde Barcelona. Em 31 de Março, logo depois de ali ter sido recebida a carta enviada pelo Almirante, já era remetida para Roma, dirigida ao seu Governador, que era na ocasião o Arcebispo de Tarragona, o seguinte:

«Per questa faccio sapere ad V. Rev. S. che perseverando nostro Segnor Dio la bona fortuna de le soy Alteze, heri hanno recepute littere da uno che se dimanda Coloma, grandíssimo marinaro, nepote del grande Coloma de Francia, el qual mandarono soy Maiestate a con doy caravele verso la India.»

(in RUZZIN, Valentina – Tante cose se dicono que pareno incredebele – Lettera sulla scoperta dell’America. Atti   della Società Ligure de Storia Patria, nº LVI. Génova: 2016. Págs 329-343)

 Como se constata, o Almirante Colon era identificado com sendo um sobrinho do grande Coloma de França, ou seja do corsário Colombo-o-Velho (Guillaume de Caseneuve), tal como consta em relatos sobre o ataque corsário de 1485, que transcrevemos no contraditório à ‘Prova’ {25} e onde se inclui a seguinte notícia, que envolve Georges Bissipat, o Grego e um sobrinho de Colombo:

 Venezia, 17 settembre 1485.

[Bibliot. Marciana in Venezia, VII it. cccxxiii, Crónica de Venetia traduta de verbo ad verbum.]

"Del .1485. adi .17. settembrio vene nove a Venetia come era stade prese le galie del viazo de Fiandra de l’ andar in lá apreso .4. iornade a Fiandra da uno nevodo de Colombo e uno Zorzi Griego i qual era com .6. barche grose, i qual le haveva tegnude a mente e tristamente le prese, le qual iera mal armade de boni homeni, ch' el non iera pur homo che savese dar fuoco a una bombarda, fo de gram daño a Venitiani;"

Fica assim patente a razão pela qual o Almirante Colon era, nessa fase, por vezes designado por Coloma, Colomba ou Collomba.

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